terça-feira, 26 de setembro de 2017

Polegarzinha - Uma inspiração ou não


— Que linda flor! — disse a mulher, dando um beijo nas pétalas vermelhas e amarelas. Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma túlipa — agora via-se bem —, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina minúscula, graciosa e delicada como uma fada. Não era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.

Imagem retirada daqui

E assim começa a história da "Polegarzinha" de Hans Christian Andersen, um clássico da literatura infantil, tantas vezes  por mim lido e recriado às minhas crianças. Conta as aventuras e desventuras de uma menina tão pequenina cuja cama é  uma casca de noz e que tem como desejo principal encontrar alguém do seu tamanho. Ao fim e ao cabo, um desejo igual ao do comum dos mortais, este, o de encontrar alguém com quem nos identifiquemos e onde prevaleçam as afinidades. 



Creio não ser muito rebuscado associar a decoração deste prato à história que acabei de referir. Comigo a associação foi automática e, posteriormente, prendi-me mais a observar a técnica de estampilha aqui utilizada.

Como terá sido executado o motivo central? Com uma única estampilha a dar forma a esta decoração, ou antes, uma composição feita com recurso a  diferentes placas?

Inicialmente inclinei-me para a segunda hipótese, mas o recurso a várias chapas talvez tornasse o trabalho mais complexo, menos célere e provavelmente este tipo de louça "andadeira" não justificasse  o uso de uma  técnica que baixasse a produção. Puras conjeturas! 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Duas chávenas para crianças

O Dia Mundial da Criança que ontem se comemorou, fez-me lembrar da minha pequena coleção de loiça infantil que anda um pouco desprezada, relegada que está, para um compartimento de arrumos. Este tipo de loiça com decoração própria para a criançada sempre exerceu em mim algum fascínio, provavelmente porque não me recordo de alguma vez, ter tido algo no género.
Assim, escolhi para aqui mostrar duas chávenas, cujas medidas se situarão entre as chávenas de chá e de café.

A primeira, uma produção da Sociedade de Porcelanas de Coimbra, para além da delicada decoração, rematada com um suave filete azul bebé, apresenta no bocal um relevo que lhe confere uma graça especial.Um animal, neste caso um gracioso coelho, dá a forma à asa Este formato foi muito usado por esta fábrica  na loiça para crianças. 

 O carimbo em verde apresenta as palavras “ Coimbra S.P. Portugal” e terá sido usado entre 1935-45. 

A segunda chávena, produção da empresa  Electro Cerâmica do Candal, sediada desde 1916 nesta freguesia de Vila Nova de Gaia,  teve as suas origens em Lisboa, na Avenida 24 de Julho (1912). Inicialmente vocacionada para o  fabrico de material elétrico em porcelana, por volta de  1930 começa também a produzir louça doméstica. 

Segundo informação recolhida aqui o carimbo desta minha chávena com decoração estival e  que apresenta uma elegante asa angular corresponderá precisamente a esse período. 
O outro lado da chávena com a frase " A chávena do menino" fez com certeza a alegria de muitas crianças. Terá também terá  facilitado a vida  a quem queria oferecer  alguma coisa ao menino, mas não sabia muito bem o quê. Problema resolvido! Estratégia de marketing  inteligente esta, a de, com uma frase simples, retirar a banalidade a um produto de forma a dirigi-lo a um consumidor específico.  

Para mais informação sobre a história da "Fábrica do Candal" ler aqui

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma cadeirinha. Um enamoramento

A cadeira que hoje dá forma a mais um post foi um caso de amor à primeira vista. Quando falo em amor à primeira vista refiro-me à sua estrutura e ao seu estilo romântico dentro de uma  estética da Arte Nova. Encantei-me com o florão e grinaldas talhadas que decoram a cadeira tornando-a numa peça muito equilibrada.A parte mais alta mede 94 cm. 

Comprada há já alguns anos, num estado de segurança periclitante andou aqui por casa mais ou menos aos trambolhões, abandonada, mas não esquecida. 


Não foi  esquecida, mas o tempo de abandono a que foi votada, foi o suficiente para eu ir perdendo as fotografias que lhe tirei, com a intenção de lhe dedicar um lugar aqui no blog. A das molas do assento, a mais interessante, perdeu-se irremediavelmente, pois, agora com ela  restaurada,  não tenho oportunidade  de as fotografar. Perdeu também uma perna e partiu-se o florão. Urgia tratar dela antes que não houvesse restauro que lhe valesse.
  
A primeira coisa a fazer  foi tentar encontrar  tecido. O original tinha que ser retirado por todos os motivos.Achava o seu padrão desajustado a esta peça tão delicada e claro que estava sujo e velho. Preferencialmente, deveria ser um tecido antigo, sem brilho, mais aproximado de uma tecelagem fina  e com um padrão floral suave e adequado ao seu  tamanho. A exigência destes  requisitos, prendiam-se com o facto de esta cadeira se destinar ao quarto da minha filha. 
 Era esta a textura que eu idealizava
Corridas todas as feiras de velharias  das redondezas sem encontrar o pretendido, lembrei-me dos tecidos de fabrico inglês. Com muita dificuldade acabei por encontrar uma pequena amostra aqui em Braga, mas achei-os quase todos demasiado pesados para o que eu pretendia. O que me agradou mais era a um preço que considerei excessivo. Noventa e sete euros o metro! Como iria precisar de pelo menos um metro desisti da ideia. Acabei por encontrar um tecido muito mais singelo, mas que, esteticamente nada a fica a dever aos outros. 
O  assento da cadeira onde se pode ver melhor o tecido escolhido
Nesta foto percebe-se a inclinação do estofo.

Aqui está ela em pose para a fotografia e nada beneficiada, O dia está escuro e não consegui melhor. Acho mais interessantes as fotos que se seguem dos pormenores. Fica-se com uma ideia mais clara sobre os pormenores que tanto me encantaram.
Um dos cantos das costas.


A parte inferior das costas
A presença constante da grinalda de flores nas diferentes partes da cadeira dão-lhe uma graciosidade muito especial. Ocorreu-me hoje, enquanto escrevia, se este tipo de padrão será o mais adequado ao estilo da cadeira. Será demasiado juvenil, marcadamente feminino? Requereria um padrão mais neutro? Talvez. Apercebo-me agora que ao não querer  recorrer às convencionais casas de tecidos de cortinados, poderei ter deixado escapar outra possibilidade. Bem, mas está feito.  A dona do quarto gosta e eu também. E, importante também é a cadeira estar restaurada e pronta para durar mais um bom par de anos.
A parte frontal da cadeira. Uma das pernas é completamente nova.
As pernas da parte de trás, curvadas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Pratos falantes: Uma inspiração

Nem a inspiração das faianças portuguesas conseguiu que eu mostrasse atempadamente dois pratos falantes alusivos ao Dia dos Namorados. Não que o valorize ou que alguma vez o tenha festejado! Quando eu era jovem não se falava em tal coisa. O namoro era vivido sem este dia e comemoravam-se unicamente as datas verdadeiramente significativas para cada par. Mas aceito e respeito que as vontades se vão mudando com o passar do tempo. O importante é que cada um  viva com amor de forma plena, dando, recebendo e respeitando.

Este primeiro prato, com uma decoração muito sóbria na sua cor única e motivos delicados, parece-me ser um trabalho mais recente do que os outros que possuo. Para além disso toda a contenção na sua decoração parece deixar adivinhar uma certa intenção de atingir um público com um gosto mais discreto. Enfim. Divagações.
O segundo prato, certamente oferta a uns noivos, mostra-nos uma decoração que apesar de mais colorida do que a do prato de cima, revela igualmente um certo requinte. Quanto a sua  origem nada sei, mas neste caso, atrevo-me a dizer que não me parece produção de Coimbra. 

Para  terminar uma foto do casamento dos meus avós maternos em 1922.Terão eles recebido alguma coisa do género? 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Improvisos de Natal

 A todos os meus seguidores, leitores e queridos comentadores desejo um Natal muito Feliz.
O postal deste ano   surgiu da necessidade de improvisar uma caminha para o Menino Jesus do meu presépio, pois a original e comprada na época em que viva em Barcelos, partiu-se, nem eu sei muito bem como. O presépio por ali andou incompleto, durante uns dias, até que me lembrei desta base de uma pequena molheira em vidro, que me faz lembrar as peças da Marinha Grande, que andavam por casa dos meus pais quando eu era criança.Parece feita à medida. O formato também se adequa e gostei do efeito. 
Outras experiências se seguiram. Escolho mais uma, a que foi feita usando a  tampa de uma bomboneira, esta sim, da Marinha Grande com toda a certeza e comprada há alguns anos no Porto.
Renovo os meus votos de Boas- Festas, desejando a todos, os bens mais preciosos da vida. Paz, amor e saúde.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Prato infantil com rima

Sempre achei muita graça à loiça para crianças embora não tenha memórias delas na minha infância. Eram outros tempos, em terras longínquas e ao "mato" chegava só o essencial. O prato do adulto era o prato da criança, o mesmo acontecendo com o garfo, com a colher e com o copo. Muitos gastos e grandes preocupações já tinham os papás do  "mato". Era a água que tinha que ser fervida e filtrada posteriormente era a toma  semanal do Daraprim  era garantir que o mosquiteiro resistisse às brincadeiras da criançada e se mantivesse na sua posição protetora durante toda a noite e tantas outras preocupações inerentes à vida em África, em meados do século XX. Foram  outros tempos e outros lugares que me fizeram viver uma infância de ouro.
A autora deste blog. O sorriso não deixa margens para dúvidas quanto à sua felicidade
 Infâncias felizes terão tido também as crianças que comeram as suas papinhas neste mimoso prato de fabrico inglês, produção da empresa  W R Midwinter; fundada em 1910 por William Robison Midwinter, em Burslem no coração das Staffordshire potteries, uma área  industrial que englobava as cidades de Tunstall, Burslem, Hankley, Stoke, Fenton e Longton e que passou a chamar-se  Stoke-on-Trent, depois destas cidades terem sido agregadas em 1910.  Esta companhia, como quase todos os empreendimentos industriais teve os seus períodos de ascensão e de dificuldades financeiras, levando-a a estabelecer frequentes sociedades com outras empresas do ramo. Acaba em 1987 como Meakin & Midwinter Holding Ltd.


Uma das vertentes em que a Midwinter se sobressaiu foi  na produção de loiça para crianças, não se poupando a esforços para garantir a sua qualidade. Em 1927 contratou o conceituado cartunista e ilustrador inglês, William Heath Robinson que se inspirou nas lengalengas infantis para decorar  esta linha de loiça. Foram dezasseis motivos inspirados noutras tantas histórias.
A decoração do meu prato inspirou-se na lengalenga "Hey didle didle" ou "The cow jumped over the moon" e conta a história aparentemente  sem nexo, dum gato e dum violino, duma vaca que salta para a lua, um cão que ri e de um prato que foge com a colher! Mas as lengalengas caraterizam-se precisamente por alguma falta de lógica e por serem histórias curtas, rimadas, ritmadas, com palavras e expressões repetidas e quase sempre relacionadas com o imaginário e com o quotidiano das crianças.

No período do pós-guerra era frequente as peças da W. R. Midwinter incluírem não só o nome da empresa, mas também, em muitos casos, o nome da forma e o nome do artista responsável pela conceção do motivo decorativo. Esta particularidade torna estas peças muito apetecíveis para os colecionadores especialmente os ingleses e permite datarem-se as peças com pequenas margens de erro. Por exemplo, este meu prato deve ter sido produzido entre 1927, data em que W. Heath Robinson foi contratado e 1932, data em que a empresa acrescenta ao seu nome comercial a abreviatura " Lda." O meu prato não apresenta esta abreviatura.
A assinatura do autor do motivo decorativo

 A marca do meu prato ainda não apresenta a abreviatura "Lda."
 Quis terminar este post com uma graça e tentei  colocar  um video do youtube com uma das versões do "Hey didle didle". Foi semelhante a trapalhada que consegui, até, eliminar tudo! Felizmente tinha a maior parte do texto em word, mas que também já tinha ido sendo apagado. Valeu-me aquela setinha, lá em cima que permite retroceder no texto e consegui recuperar a maior parte. Resta-me acabar sem graça nenhuma, mas satisfeita por não ter tido um trabalho inglório.

Alguma informação que utilizei e que considero muito útil.






quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Mr Miller. Um homem que não gostava de chá.

 Nestas cibertertúlias é clara a paixão ou simplesmente o gosto pelas nossas velharias, umas mais antigas ou valiosas do que outras, mas todas elas recolhidas com um sentimento difícil de definir e que se situa entre  a exultação da descoberta de algo que achamos fantástico e o prazer simples e sereno de trazermos para casa um qualquer tareco que, por qualquer mistério da mente ou da alma, não conseguimos deixar para trás, mesmo que o espaço em casa comece a rarear. Acontece assim com grandes e pequenos colecionadores, sejam as suas coleções temáticas ou não. E é precisamente sobre um destes colecionadores que hoje venho aqui falar.

Meus tarecos
A mão querida da minha filha fez-me chegar uma notícia de hoje no  The Telegraph, sobre um tal Mr Miller, um homem que não gostava de chá e que tinha a maior coleção de bules da Grã-Bretanha. Mais de  de dois mil.
Mr Miller. (imagem daqui)
Este colecionador, arquiteto de profissão iniciou a sua coleção em 1970 com um bule do século XIX que lhe custou uma libra! A sua coleção tinha o propósito de reunir exemplares das mais variadas fábricas Inglesas. Para além de colecionador também foi um estudioso deste tema, tendo publicado dois livros.

Parte da coleção (  TheTelegraph)
Nunca tinha ouvido falar neste senhor nem na sua fabulosa coleção. A sua morte divulgou-lhe  a vida. Estou certa de que por esse mundo fora, muitos, tal como eu lamentam a sua morte e a compreensível venda deste autêntico tesouro. Preparei uma foto de alguns dos meus modestos bules para terminar como uma nota de humor. Mas a escrita tem coisas destas. Transforma-nos os sentimentos e a nota de humor dá lugar a uma singela homenagem a Mr Miller, uma alma com tantas afinidades a tantos de nós
A notícia completa