quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Zé Povinho

Não tenho por hábito associar os meus posts a datas comemorativas, mas neste mês da implantação da República Portuguesa, seria tolice não mostrar esta travessa que comprei há já largos meses e que tem estado mais ou menos abandonada à espera desta data. Pois bem. Sei que todos já reconheceram o nosso Zé Povinho, criado em 1875 por Rafael Bordalo Pinheiro, para o jornal humorístico de crítica social e política  "A Lanterna Mágica". A partir do último quartel do século XIX populariza-se como objeto de cerâmica; é nesta altura, que o  manguito, gesto a que associamos sempre a esta figura, aparece. Quase trinta anos após a sua criação! 

Aqui, o Zé aparece numa associação muito curiosa a um dos símbolos da república, usando o barrete frígio e com uma expressão facial rude que deixa adivinhar um sentimento de fúria ou contestação. A representação do Zé Povinho nesta travessa foi, muito provavelmente, baseada em alguma imagem de um panfleto ou jornal. Corresponderia esta caricatura, ao período em que já se verificava algum desencanto com o novo sistema político? 

 Quanto a datas de fabrico e origem e atendendo às semelhanças entre os dois Zés, posso considerar as atribuídas a este prato, ou seja: Poderá ser de Aveiro ou Coimbra e a datação será  do 1º quartel do século XX.
Imagem retirada do livro "A cerâmica Portuguesa da monarquia à república". Coleção particular.
Resta-me acrescentar que acho este prato magnífico, pela ironia subtil que emana da decoração da aba, com nabos cuidadosamente dispostos como se de flores se tratassem.

Fontes - A cerâmica portuguesa de monarquia à república (Edição do Museu Nacional do Azulejo) 2011;
              O gesto do Zé Povinho: da figa ao manguito - João Medina 

Sei que não estou as seguir as normas para apresentação  bibliográfica, coisa complexa para quem não lida amiudadas vezes com este assunto, mas como meu blog está longe de ser um trabalho académico ou científico, posso aligeirar :) 

6 comentários:

  1. Estas coisas da cerâmica nunca deixam de nos surpreender! Ver um Zé Povinho com um barrete frígio na cabeça é algo surpreendente!
    É um dos símbolos adoptados pelos republicanos, numa clara alusão ao barrete da liberdade comum aos franceses, após a Revolução de 1789.
    Assim, estou perfeitamente de acordo com a sua datação da peça e também da sua região de origem, se bem que me incline mais para Aveiro, mas sem razão nenhum especial.
    O prato com os nabos é absolutamente delicioso!
    Nunca tinha visto este tipo de tema tratado desta forma.
    Os meus parabéns por mais esta interessante peça.
    Um bom final de semana que já se aproxima
    Manel

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    1. Olá Manel
      Quando me comecei a interessar pelas faianças, uma das coisas que me surpreendeu foi o seu sentido de oportunidade ao adequarem a produção aos acontecimentos da época. Esta travessa é um bom exemplo desse espírito de marketing, que já na altura existia. Se bem pensarmos, há, até, exemplos bem mais remotos do que este. Pois. O Zé Povinho desta travessa está muito politizado e eu também não lhe conhecia esta faceta :) Só o associava ao chapéu saloio.Mas que ficou bem, ficou.
      Um bom fim de semana e que o mau tempo nos dê algumas tréguas.

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  2. Maria Paula

    Embora seja bibliotecário e a minha vida seja feita a rever registos bibliográficos, pois ali, põe-se uma vírgula, ali um ponto, acolá uma barra e o local de edição vem antes da editora, está perdoada por não ter feito a referência bibliográfica como deve ser. Mas, mais importante que isso, é que consultou a obra e fundamentou-se correctamente para as afirmações que fez.

    Pessoalmente acho a sua peça uma curiosidade histórica muito interessante e julgo que tem um valor acrescentado por ser uma espécie de panfleto político em forma de cerâmica.

    Bjos

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    1. Agradeço-lhe o perdão, caro Luís:) Mas a verdade é que ainda tentei referenciar corretamente, mas já não houve paciência:( É que, esse põe e tira de vírgulas, pontos, travessões, apelidos, nomes próprios e "et.al", sempre me criaram aquele sentimento horrível de "eu não percebo nada disto!" E na época em que tive de utilizar essas referências ainda não havia net e lá vinha a cábula....mas mesmo assim era uma fase dos trabalhos que detestava.
      Também acho esta travessa interessante enquanto documento de uma época.Não lhe resisti por isso mesmo. Ainda não tem poiso certo. Se fosse prato era mais fácil :)
      Bjs e bom fim de semana. Espero que tenha passado incólume por essas cheias lisboetas.

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  3. A Maria Paula descobre de vez em quando umas peças muito interessantes da nossa faiança! Esta deve ser bem rara, pelo menos eu nunca vi nada com este motivo à venda, em tantas feiras e lojas de velharias que frequento.
    No segundo exemplar, acho aquela aba com os nabos um verdadeiro primor de humor e graça! Já folheei a obra que cita, mas não me lembrava de ter visto este prato.
    Parabéns pela compra desta travessa com um símbolo tão marcante e datado!
    Beijos

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  4. Olá Maria Andrade
    Obrigada pelas suas simpáticas palavras.Também não conhecia nada no género, daí, esta peça ter atraído a minha atenção e como estava relativamente barata, lá a trouxe comigo. O Zé Povinho, só o conhecia das populares figuras de cerâmica, muito presentes nas antigas mercearias e tascas. Nunca antes tinha visto uma peça de cerâmica assim decorada e a sua época de fabrico deve realmente corresponder ao período pós instauração da república. Beijos para si e um bom fim de semana.

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