sexta-feira, 5 de julho de 2013

Faiança falante - Post revisto


A Maria Isabel, num dos seus  posts mostrou uma linda coleção de pratos, todos eles com frases alusivas ao amor. Fiquei encantada, especialmente com o que interroga ingenuamente “Gostas de mim…?”
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Tenho dois pratos desta “faiança falante”, cada um com a sua graça.
O primeiro, o que mostro abaixo, felicita um casal de noivos e tem uma decoração central muito elegante.
Gosto do pormenor do fruto a surgir do recetáculo da flor e penso que terá alguma simbologia relacionada com a fertilidade, com os filhos “frutos do casamento”.

O segundo prato, com a frase “És má” no meio de uma decoração onde são  representadas  rosas, flores de silvas e folhas dentadas, conta a história engraçada de um oleiro de Barcelos, que resolve vingar-se do mau génio da mulher criando esta decoração especialmente para ela. A mulher, que era analfabeta, regozija-se com a oferta, interpretando unicamente o significado tradicionalmente atribuído às rosas ou seja o amor, a delicadeza, a harmonia, enfim, um sem número de sentimentos todos eles muito  belos, mas que não correspondiam ao intuito desta mensagem. Esqueceu-se ela,  de que as rosas que têm espinhos :) 

Ao que consta, ficou de tal maneira sensibilizada com o gesto do marido, que o seu mau génio melhorou substancialmente, conseguindo assim,  o matreiro do oleiro,  algum tempo de  paz. Mas  um belo dia,  uma amiga lê-lhe a frase que ela supunha ser uma declaração de amor e foi o descalabro, com a história a voltar ao princípio e, desconfio eu, que o mau génio se terá agudizado! Pobre homem::)
Pormenor da aba

São histórias destas que, com ou sem fundo de verdade, dão significado às peças tornando-as mais apetecíveis. Confesso que comprei este prato porque conhecia a história e não lhe resisti, ainda por cima estando ele muito barato.  A decoração da aba é muito bonita, muito simples e consegue um efeito pouco comum.

Fiz alguma pesquisa sobre a origem, usos e costumes da nossa "faiança falante", mas nada encontrei. Nem tão pouco bibliografia! Nada! Talvez nas bibliotecas lhe encontrasse algumas referências, mas por enquanto o tempo não me sobra para pesquisas mais aprofundadas.  Em contrapartida, encontrei informação muito útil e completa sobre a "faiança falante" francesa, as faience parlante. A título de curiosidade, pois este assunto é muito vasto e daria pano para mangas,  refiro apenas a "faiança falante" francesa com a designação de  patronymique  e révolutionnaire. A "grosso modo" pode dizer-se que a decoração da faiança patronymique, associa uma data, um nome próprio ou de família, a uma imagem alusiva à profissão do seu proprietário, ou a um santo da sua devoção, conforme o exemplo da fotografia que se segue.

Faïence patronymique 

Neste caso, ao nome do proprietário foi associada a data de 1746  e 
uma representação de São João Batista.  Imagem retirada daqui
A decoração da  faience révolutionnaire produzida entre 1789 e 1799, tal como o nome sugere está intimamente ligada aos acontecimentos da Revolução Francesa representando os acontecimentos da época. Os estudiosos, referem o período entre 1790 e 1792, como o pico da produção deste género de faiança,  justificando o desfasamento entre os principais acontecimentos da revolução e a sua produção, com o facto de as  principais manufacturas estarem localizadas na província, o que, certamente, atrasava  a chegada das  notícias e rumores. Se tomarmos como exemplo Nevers, que fica aproximadamente a 260 km de Paris, compreenderemos melhor o referido desfasamento.
Nevers -Grande  centro de produção de faianças e um dos mais antigos em França. Foto daqui

Em Portugal, à exceção das mangas de farmácia, não conheço exemplos de "faiança falante" tão antigas quanto o exemplo destas faianças francesas.
Fonte - http://www.alienor.org/ARTICLES/faience_patronyme/index.htm

Mea culpa, mea culpa. Ignorem o parágrafo de cima.
O gentil e útil comentário da Maria Andrade a este mesmo post, remeteu-me para o site MatrizNet onde se podem ver alguns exemplares de “faiança falante” portuguesa (embora não sejam assim designados neste site). As datas de fabrico atribuídas às peças que aqui mostro situam-se entre os séculos  XVII  e XVIII.
Imagem retirada daqui. Datação da peça entre 1650 e 1725
Imagem da MatrizNet. Peça do museu de Évora e datada entre 1676 e 1700



Depois de começar a rever este post descobri, muitos mais exemplares de "faiança falante" contemporâneos destes últimos, embora nenhum deles apareça com a designação de "faiança falante". O próprio José Queirós no seu livro que já aqui citei, refere estudos sobre a  faience Patriotique , usa o termo  "faiança patriótica" a propósito de algumas peças da nossa faiança, mas, do que li neste seu livro,  nunca encontrei  o termo "faiança falante". Será, que no caso português, se pode deuzir que este termo é mais usado em informalmente e não tanto em contexto científico? Seja como for, gosto muito deste género de faiança, que  nos conta bocados da história de cada um ou de uma ocasião.



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Azulejos com motivos vegetalistas. Braga

Mais uma fachada, desta vez em Braga, no atual Largo de Santiago, local antigo, que  na época era designado por rua de São Tiago  e que aparece já referenciado no manuscrito de 1750,  " Mapa das ruas de Braga", da autoria do padre Ricardo da Rocha. A título  de curiosidade diga-se que este mapa surge da incumbência, por parte do Cónego Francisco Pacheco Pereira, Provisor do Arcebispado, com o objetivo de localizar e identificar as casas foreiras ao cabido, numa tentativa de inverter a grave crise económica e financeira que se vivia  e que, segundo alguns, terá sido resultante de uma negligente administração dos bens, por parte do cabido da Sé de Braga.

Claro, que a casa que mostro hoje é bem mais recente, talvez do primeiro quartel do século XX e está revestida com uns azulejos, bonitos, muito bonitos, diferentes do comum, mas que curiosamente, vistos ao longe, não criam impacto visual. É daqueles edifícios que, seguramente, não será muito fotografado por turistas.
O certo é que ainda ao longe, achei-lhes qualquer coisa de diferente e resolvi atravessar o largo para os ver mais de perto. Para minha grande surpresa encantei-me com eles :) Esta sucessão de arcos, folhagem,  linhas curvas e a sua policromia dão-lhe um ar muito gracioso e diferente.Há qualquer coisa neste padrão vegetalista que me remete para os desenhos dos tecidos indianos. A pintura irregular e aguada, do cor de rosa dos arcos podem ser indicadores de uma produção ainda  pouco industrializada. Mas, sobre estas  questões técnicas não me pronuncio.
Em baixo, um pormenor do aro que envolve as portas. Descobri há pouco tempo  quão harmónicos são estes acabamentos dos azulejos com as guias de granito.

Pormenor da faixa que remata todo o  trabalho de revestimento

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Azulejos Arte Nova - Casa Verde - Vila Nova de Cerveira


Para iniciar a série sobre azulejos de fachada mostro hoje uma casa de Vila Nova de Cerveira, terra raiana muito bem preservada e com uma série de edifícios muito interessantes do ponto de vista arquitetónico e histórico.
Esta casa, conhecida como a Casa Verde é uma construção apalaçada de estilo brasileiro e  talvez  seja dos finais do século XIX. Encontra-se situada na principal praça de Cerveira e beneficiou recentemente de um grande restauro.
Fachada lateral e traseira
Olhei-a um sem número de vezes ao longo dos anos, mas nunca com "olhos de ver"; pareciam-me lisos,  os azulejos de modelo retangular e de bordo facetado, tão comuns na nossa construção. Fiquei admirada quando me apercebi que eram azulejos Arte Nova e em relevo. De longe, não se conseguem perceber estes pormenores. 
No blogue,  "Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiças de Sacavém", para além de um azulejo igual aos que revestem esta casa e que se encontra marcado "Coroa"  e  "Sacavém",  pode-se ainda ver  a reprodução de um catálogo,que mostra um conjunto de azulejos iguais aos do post de hoje. Creio não haver dúvidas quanto à sua origem.
Pormenor do friso
Um grande plano 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Cantão Popular mais uma vez


Cá estão os dois pratos de que falei outro dia no "Arte, livros e velharias" , a propósito deste  post. Tal como disse na altura, acho este meu prato muito idêntico ao primeiro que a Maria Andrade  mostrou, sendo a principal diferença  a decoração central  menos cheia que o meu prato apresenta. A aba não oferece dúvidas é igual.
O segundo prato, que eu considero muito diferente do habitual, mantém a decoração central "roubada" ao Cantão Popular, faltando-lhe no entanto,  alguns dos  elementos que caraterizam este motivo. Na  decoração da aba, para além do invulgar  elemento decorativo enquanto falamos deste tipo de faiança, foi usada uma técnica mista, que eu creio ser uma  designada por stencil e a outra por esponjado. É este jogo das diferenças e semelhanças que torna estas faianças tão apaixonantes.
Deveria ficar por aqui mas não resisto em mostrar mais um exemplar também ele uma variante interessante do Cantão Popular. Estava à venda no chão por uma ninharia e trouxe-o comigo, apesar de partido e colado com uma cola inapropriada. Não sei muito bem o que se pretendeu representar com aquelas bolas azuis por cima das nuvens e que a mim me sugerem foguetes :) Acho também  curioso, o facto da árvore aparecer do lado esquerdo do prato.