terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Faiança falante na Fábrica de Loiça de Sacavém: Uma constante ao longo dos tempos.

Creio não estar enganada se disser que a grande maioria dos portugueses da minha geração e da que me antecede, mantém com a Fábrica de Loiça de Sacavém uma relação afetiva muito especial. Quem destas gerações não se lembrará dos pratos, malgas, serviços e outras peças em uso lá por casa durante a sua infância? E quantos não guardam zelosamente as loiças que chegaram até hoje? Outros, como eu, em que muito pouco restou dos tempos de meninice, compram agora peças de “Sacavém” na tentativa de repor essas memórias. 
Cartaz publicitário junto à Câmara de Oliveira do Hospital. Foto retirada daqui
Quase sem dar por ela e sem intenção de colecionar faiança falante desta fábrica, juntei algumas peças de diferentes épocas de produção e é com muito gosto que as partilho convosco.
 Começo pela mais recente, uma chávena com o carimbo usado desde 1970 até ao encerramento da fábrica em 1983.


Apresenta um design um tanto ao quanto minimalista. Um remate em castanho e a frase “Lembrança para o PAIZINHO” em dourado são os únicos elementos decorativos.

 Segue-se um pires com uma curiosa conjugação decorativa. A aba apresenta a cercadura floral usada no motivo comummente designado por “Pagode chinês” e o centro é decorado com uma cena infantil em que dois gansos com uma expressão pouco amistosa parecem ameaçar a criança que se tenta refugiar na mulher. Por cima, a frase “ Coma tudo”.


  A marca foi a usada entre 1910 e 1918 e apresenta a particularidade de ter impresso na pasta "SACAVÉM". 

Talvez pelas suas reduzidas dimensões acho uma graça especial à pequena tigela da foto abaixo, com a inscrição “ LEMBRANÇA DA AVÓZINHA”. 
 Nas várias pesquisas que efetuei não encontrei nenhuma marca igual, mas Mfls no post “Algumas Notas Sobre as Marcas Gilman & Cta” mostra-nos uma marca muito semelhante a esta ( G&Cta. 4), usada entre os anos de 1930 a 1970.


Finalmente, a peça mais antiga deste conjunto. Trata-se dum prato sobriamente decorado. Na aba o alfabeto é disposto harmoniosamente enquanto o centro é preenchido com os algarismos de um a zero e… o nosso desaparecido cifrão. A marca foi a usada entre os anos de 1894 e 1909 e  apresenta a palavra "Sacavém" e uma coroa impressa na pasta.

Ao concluir este post reparei que as peças que reuni têm a criança como denominador comum. Não deixa de ser uma particularidade engraçada, mas que na verdade não tem significado nenhum.

Sites

A loiça e os cacos: http://aloicaeoscacos.blogs.sapo.pt/1055.html

Associação dos Amigos da Loiça de Sacavém:  http://www.loicadesacavem.pt/carimbos/

Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém:  http://mfls.blogs.sapo.pt/37228.html

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Um berço, uma dúvida, algumas pistas

No meu último post mostrei um Menino Jesus deitado num berço feito de ramos de diversos arbustos e disse na altura, que tinha a convicção de que esta pequena cama poderia ser um trabalho de artesanato alentejano. Esta convicção advinha do facto de ter presente os trabalhos de cestaria típicos do Alentejo e também, porque esta peça foi pertença de uma tia natural de Campo Maior.

O conjunto de berço e Menino na noite de Natal

Nesta foto pode-se ver todo o trabalho do meu berço

Mas, por vezes há coincidências muito curiosas, muito engraçadas e inesperadas que deitam por terra as nossas certezas ou as nossas suposições. Então, aconteceu, que andava eu a preparar o post de hoje, quando, de pesquisa em pesquisa sobre as várias representações da natividade de Jesus vou ter ao site de uma organização católica norte americana, onde num texto sobre a preparação espiritual para o Natal vejo um berço em tudo igual ao meu! Contactei a autora do texto na esperança que ele me dissesse qual a origem do seu berço, mas não obtive resposta.
Foto retirada https://www.catholicculture.org/culture/liturgicalyear/blog/index.cfm?id=171
Entretanto descobri muitos, muitos mais berços destes, todos eles muito parecidos com o meu. No ebay e noutros sites de venda é apresentado como um trabalho artesanal espanhol e num outro sítio atribuem-lhe Malta como origem! Não considero nenhuma destas atribuições muito credíveis. Se não tivesse tentado tirar esta questão a limpo, hoje, na internet, circularia mais uma informação inconsistente, ou seja, que este berço seria um trabalho artesanal alentejano. Para mim a dúvida mantém-se.



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Festas Felizes com um velhinho Menino


Com um velhinho Menino Jesus com olhos de vidro e feito numa pasta que não sei identificar, desejo a todos os meus queridos comentadores e seguidores um  ano de 2016 repleto de felicidade, estimando ainda que tenham  tido um Feliz Natal.

Prometo voltar para mostrar a cama que recebe o Menino, feita com ramos de arbustos que resulta num curioso trabalho artesanal. Tenho a crença de que a sua origem poderá ser o Alentejo.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Jarra de altar



Admiro a capacidade criativa de algumas pessoas  para recuperarem e transformarem objetos.  Eu própria, apesar de pouco habilidosa e pouco paciente gosto de o fazer e por isso mesmo, estou à vontade para dizer que por vezes, os nossos assomos de imaginação estragam objetos que nunca deveriam ser mexidos. É o caso desta jarra de altar transformada, em má hora, numa base de candeeiro.Depois de muito olhar para ela e de a comparar com outras,  coloco a hipótese de lhe terem cortado a parte mais larga do bocal.

A decoração  é uma clara alusão à crucificação de Cristo. No motivo central podemos ver a cruz,  no monte do Calvário ladeada por duas lanças e a legenda “5º Passo”. Uma das lanças, a pontiaguda, será a lança que trespassou o corpo de Cristo e é mencionada no evangelho de S. João (João 19:31 – 36). Era hábito, naquela época, os romanos partirem as pernas dos crucificados para acelerarem a sua morte.
Rubens

Esta prática era conhecida por crurifragium e segundo João, os romanos ao aperceberem-se de que Jesus já estaria morto, desistiram deste hábito mas trespassaram-lhe o flanco para se certificarem da sua morte. A segunda lança terá servido para chegar a Jesus uma esponja embebida numa beberagem, cuja descrição varia conforme os evangelhos.



A legenda “5º Passo” intriga-me. Rapidamente a associei às estações da Via Sacra. No entanto, nesta estação ou passo, Simão de Cirene ajuda Jesus a carregar a cruz e é sempre com estes elementos que este quadro é representado. Qual terá sido então, a relação que pretenderam estabelecer entre estes símbolos da crucificação e a inscrição 5º Passo?


 Ou não terá havido intenção nenhuma? Ocorreu-me agora que esta jarra poderá ter feito parte de algum conjunto  destinado à identificação das estações  da Via Sacra de alguma capela ou igreja.
Quanto à sua origem nada sei. As possibilidades são muitas, mas como não está marcada abstenho-me por completo, preferindo ouvir  opiniões sabedoras e sensatas. No entanto, na busca por informação encontrei esta do Luís e não pude deixar de notar algumas semelhanças decorativas entre as duas.

Na fotografia de cima pode-se ver o orifício por onde passava o fio elétrico. Quero restaurá-la, devolver-lhe a dignidade inicial, mas tenho um certo receio que ao tentarem retirar o bocal metálico, a partam de forma irrecuperável. Eu já tentei fazer esse serviço, mas com a minha faca de cozinha obviamente que não fui longe:)

Já se aperceberam de que a publicação deste post está atrasada. Era minha intenção que coincidisse com as últimas semanas da Quaresma, mas tal não foi possível. Guardá-lo para o ano também não faria sentido.