quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Pratos falantes: Uma inspiração

Nem a inspiração das faianças portuguesas conseguiu que eu mostrasse atempadamente dois pratos falantes alusivos ao Dia dos Namorados. Não que o valorize ou que alguma vez o tenha festejado! Quando eu era jovem não se falava em tal coisa. O namoro era vivido sem este dia e comemoravam-se unicamente as datas verdadeiramente significativas para cada par. Mas aceito e respeito que as vontades se vão mudando com o passar do tempo. O importante é que cada um  viva com amor de forma plena, dando, recebendo e respeitando.

Este primeiro prato, com uma decoração muito sóbria na sua cor única e motivos delicados, parece-me ser um trabalho mais recente do que os outros que possuo. Para além disso toda a contenção na sua decoração parece deixar adivinhar uma certa intenção de atingir um público com um gosto mais discreto. Enfim. Divagações.
O segundo prato, certamente oferta a uns noivos, mostra-nos uma decoração que apesar de mais colorida do que a do prato de cima, revela igualmente um certo requinte. Quanto a sua  origem nada sei, mas neste caso, atrevo-me a dizer que não me parece produção de Coimbra. 

Para  terminar uma foto do casamento dos meus avós maternos em 1922.Terão eles recebido alguma coisa do género? 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Improvisos de Natal

 A todos os meus seguidores, leitores e queridos comentadores desejo um Natal muito Feliz.
O postal deste ano   surgiu da necessidade de improvisar uma caminha para o Menino Jesus do meu presépio, pois a original e comprada na época em que viva em Barcelos, partiu-se, nem eu sei muito bem como. O presépio por ali andou incompleto, durante uns dias, até que me lembrei desta base de uma pequena molheira em vidro, que me faz lembrar as peças da Marinha Grande, que andavam por casa dos meus pais quando eu era criança.Parece feita à medida. O formato também se adequa e gostei do efeito. 
Outras experiências se seguiram. Escolho mais uma, a que foi feita usando a  tampa de uma bomboneira, esta sim, da Marinha Grande com toda a certeza e comprada há alguns anos no Porto.
Renovo os meus votos de Boas- Festas, desejando a todos, os bens mais preciosos da vida. Paz, amor e saúde.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Prato infantil com rima

Sempre achei muita graça à loiça para crianças embora não tenha memórias delas na minha infância. Eram outros tempos, em terras longínquas e ao "mato" chegava só o essencial. O prato do adulto era o prato da criança, o mesmo acontecendo com o garfo, com a colher e com o copo. Muitos gastos e grandes preocupações já tinham os papás do  "mato". Era a água que tinha que ser fervida e filtrada posteriormente era a toma  semanal do Daraprim  era garantir que o mosquiteiro resistisse às brincadeiras da criançada e se mantivesse na sua posição protetora durante toda a noite e tantas outras preocupações inerentes à vida em África, em meados do século XX. Foram  outros tempos e outros lugares que me fizeram viver uma infância de ouro.
A autora deste blog. O sorriso não deixa margens para dúvidas quanto à sua felicidade
 Infâncias felizes terão tido também as crianças que comeram as suas papinhas neste mimoso prato de fabrico inglês, produção da empresa  W R Midwinter; fundada em 1910 por William Robison Midwinter, em Burslem no coração das Staffordshire potteries, uma área  industrial que englobava as cidades de Tunstall, Burslem, Hankley, Stoke, Fenton e Longton e que passou a chamar-se  Stoke-on-Trent, depois destas cidades terem sido agregadas em 1910.  Esta companhia, como quase todos os empreendimentos industriais teve os seus períodos de ascensão e de dificuldades financeiras, levando-a a estabelecer frequentes sociedades com outras empresas do ramo. Acaba em 1987 como Meakin & Midwinter Holding Ltd.


Uma das vertentes em que a Midwinter se sobressaiu foi  na produção de loiça para crianças, não se poupando a esforços para garantir a sua qualidade. Em 1927 contratou o conceituado cartunista e ilustrador inglês, William Heath Robinson que se inspirou nas lengalengas infantis para decorar  esta linha de loiça. Foram dezasseis motivos inspirados noutras tantas histórias.
A decoração do meu prato inspirou-se na lengalenga "Hey didle didle" ou "The cow jumped over the moon" e conta a história aparentemente  sem nexo, dum gato e dum violino, duma vaca que salta para a lua, um cão que ri e de um prato que foge com a colher! Mas as lengalengas caraterizam-se precisamente por alguma falta de lógica e por serem histórias curtas, rimadas, ritmadas, com palavras e expressões repetidas e quase sempre relacionadas com o imaginário e com o quotidiano das crianças.

No período do pós-guerra era frequente as peças da W. R. Midwinter incluírem não só o nome da empresa, mas também, em muitos casos, o nome da forma e o nome do artista responsável pela conceção do motivo decorativo. Esta particularidade torna estas peças muito apetecíveis para os colecionadores especialmente os ingleses e permite datarem-se as peças com pequenas margens de erro. Por exemplo, este meu prato deve ter sido produzido entre 1927, data em que W. Heath Robinson foi contratado e 1932, data em que a empresa acrescenta ao seu nome comercial a abreviatura " Lda." O meu prato não apresenta esta abreviatura.
A assinatura do autor do motivo decorativo

 A marca do meu prato ainda não apresenta a abreviatura "Lda."
 Quis terminar este post com uma graça e tentei  colocar  um video do youtube com uma das versões do "Hey didle didle". Foi semelhante a trapalhada que consegui, até, eliminar tudo! Felizmente tinha a maior parte do texto em word, mas que também já tinha ido sendo apagado. Valeu-me aquela setinha, lá em cima que permite retroceder no texto e consegui recuperar a maior parte. Resta-me acabar sem graça nenhuma, mas satisfeita por não ter tido um trabalho inglório.

Alguma informação que utilizei e que considero muito útil.






quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Mr Miller. Um homem que não gostava de chá.

 Nestas cibertertúlias é clara a paixão ou simplesmente o gosto pelas nossas velharias, umas mais antigas ou valiosas do que outras, mas todas elas recolhidas com um sentimento difícil de definir e que se situa entre  a exultação da descoberta de algo que achamos fantástico e o prazer simples e sereno de trazermos para casa um qualquer tareco que, por qualquer mistério da mente ou da alma, não conseguimos deixar para trás, mesmo que o espaço em casa comece a rarear. Acontece assim com grandes e pequenos colecionadores, sejam as suas coleções temáticas ou não. E é precisamente sobre um destes colecionadores que hoje venho aqui falar.

Meus tarecos
A mão querida da minha filha fez-me chegar uma notícia de hoje no  The Telegraph, sobre um tal Mr Miller, um homem que não gostava de chá e que tinha a maior coleção de bules da Grã-Bretanha. Mais de  de dois mil.
Mr Miller. (imagem daqui)
Este colecionador, arquiteto de profissão iniciou a sua coleção em 1970 com um bule do século XIX que lhe custou uma libra! A sua coleção tinha o propósito de reunir exemplares das mais variadas fábricas Inglesas. Para além de colecionador também foi um estudioso deste tema, tendo publicado dois livros.

Parte da coleção (  TheTelegraph)
Nunca tinha ouvido falar neste senhor nem na sua fabulosa coleção. A sua morte divulgou-lhe  a vida. Estou certa de que por esse mundo fora, muitos, tal como eu lamentam a sua morte e a compreensível venda deste autêntico tesouro. Preparei uma foto de alguns dos meus modestos bules para terminar como uma nota de humor. Mas a escrita tem coisas destas. Transforma-nos os sentimentos e a nota de humor dá lugar a uma singela homenagem a Mr Miller, uma alma com tantas afinidades a tantos de nós
A notícia completa


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Conversas em redor de um pássaro

 Acabei de ler o  post do Velharias do Luís onde é abordado o sempre oportuno tema da identificação da  faiança portuguesa, ou melhor dizendo, da dificuldade nesta identificação e do risco de errarmos quando fazemos de forma aligeirada uma atribuição a este ou àquele centro de produção  ou região.
Para ilustrar o post o Luís socorreu-se de duas encantadoras peças, estabeleceu algumas semelhanças entre os seus padrões e desenvolveu uma ideia muito interessante sobre a pertinência de um estudo sobre os gostos decorativos da população da época. Ora, uma das peças, o prato decorado com um passarinho, fez-me lembrar um prato meu também ele decorado com um passarinho, mas este, muito pouco convencional. Ora reparem.
Para mim, o artista que pintou este prato adaptou com grande criatividade a estampilha de um peixe ao corpo de uma ave. Se lhe retiramos as asas e a pata o que fica? Um peixe. Um bocado desajeitado é certo, mas ainda assim um peixe.
Não sei se está correta esta minha especulação, mas uma coisa é certa. Este é daqueles pratos pelo qual nutro uma simpatia especial. Para além do "pássaro peixe" gosto muito do ramo outonal  e acho uma graça especial à cercadura com os elementos de recorte miúdo.  

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Faiança do Brasil

Sou frequentadora assídua da feira de velharias de Ponte de Lima, para mim, a melhor da região minhota. Vale pela sua localização, a magnífica Avenida dos Plátanos, pela quantidade de feirantes, variedade dos artigos e das peças com qualidade superior às apresentadas nas outras feiras da região.
Avenida dos Plátanos. Foto retirada daqui
Foi aqui que vi, num estaminé de pano no chão, o prato que hoje mostro. Fiquei intrigada e enquanto aguardava pela oportunidade de me abeirar ia especulando sobre a origem do prato, pois não me parecia ser de produção inglesa ou portuguesa, as mais comuns nas nossas feiras. 
Ainda pensei na faiança francesa, mas quando constatei que afinal era brasileiro (obrigada Fábio pelo seu “Porcelana Brasil”) fiquei, como se tivesse achado um tesouro. Nada tinha do Brasil e logo descubro uma peça com esta decoração! Para além do magnífico azul, a caravela de velas enfunadas e o céu tempestuoso dão-lhe um significado muito especial, numa indiscutível alusão aos descobrimentos portugueses.
Este pequeno prato de dezoito centímetros de diâmetro é produção da fábrica de CÉRAMUS de S. Paulo. Achei interessante que durante as leituras que fiz de preparação para este post, ao digitar a palavra “Céramus”, fui direitinha a dois blogues, que sigo e cujos autores muito considero. Falo nem mais nem menos do Porcelana Brasil do Fábio Carvalho e do  Do Tempo do Guaraná de Rolha do C. Deveikis. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A mitologia na faiança inglesa

A variedade da decoração da faiança inglesa não pára de me surpreender. Parecia-me a mim, mera amadora nestas questões, que os temas se esgotavam com os motivos vegetalistas, paisagens imaginárias ou cenas românticas, mas não. Há já algum tempo que fui descobrindo várias peças pertencentes a serviços de mesa decoradas com temas, que à luz dos gostos de hoje são no mínimo, surpreendentemente inesperados. É o caso desta travessa decorada com cenas da mitologia, uma das peças do grupo de que falo atrás, à qual não resisti e acabei por comprar pela curiosidade que me despertou.


Eu sei, que os meus comentadores habituais sabem bem, o quanto uma peça menos usual estimula a nossa curiosidade, levando-nos de pesquisa em pesquisa, aprofundando uns assuntos e descobrindo outros, com a esperança de ficarmos a conhecer melhor a peça em questão. Foi assim que, após alguma pesquisa descobri com muita satisfação a gravura que deu origem à decoração central desta travessa e que representa regresso triunfal de Dionísio de uma das suas campanhas à Índia.


Trata-se de uma das muitas gravuras que compõe a obra Collection of Etruscan, Greek, and Roman antiquities from the cabinet of the Honble. Wm. Hamilton, His Britannick Maiesty's envoy extraordinary at the Court of Naples, de Sir William Hamilton (1730 - 1803), diplomata escocês, arqueólogo e vulcanólogo que, ao longo da sua vida de teve oportunidade de fazer uma inestimável coleção de vasos gregos e italianos que acabou por vender ao Museu Britânico, não sem antes, mandar reproduzir as cenas destes vasos, nascendo assim a obra em quatro volumes, que refiro atrás.

The procession of Dionysos (fig. 51)
 Este catálogo inspirou várias manufaturas de cerâmica que não desperdiçaram a oportunidade de irem ao encontro do gosto do grande público pelos objetos de tendência neoclássica, surgindo assim o motivo compreensivelmente designado por “Greek”. 

Quanto à origem da minha travessa  que não está marcada e por comparação com outras peças atrevo-me a pensar que poderá se uma produção da Spode. Em todos os pormenores ela é igual às peças que podemos ver na exposição on line desta manufatura, apresentando as mesmas caraterísticas, ou seja,  para além da figura central,  lá estão na aba, os quatro vasos e os painéis figurativos sobre um fundo de parras e bagos de uva soltos pela folhagem.

Em exibição na Exposição on line da Spode
Mas, para me retirar a veleidade de pretensas certezas, sabe-se também, que há peças atribuídas a Herculaneum e a Minton com este padrão, embora com evidentes diferenças nos detalhes. Para aumentar as incertezas,  alguns autores referem mesmo que, em relação a Herculaneum, nenhuma das centenas de peças por eles vistas com estes motivos e atribuídas àquela manufatura apresentavam qualquer tipo de marca. 
Travessa atribuída a Herculaneum no Lovers of blue & white
Mesmo assim acreditam que este padrão terá sido usado em Liverpool, uma vez que, quando a fábrica fechou, foram encontradas uma série de placas de cobre usadas na técnica do transferer printing e uma delas ostentava o título de Charrioteers, referindo-se provavelmente ao motivo "Greek". Um destes autores, Peter Hyland refere mesmo que no museu de Liverpool, foram retiradas de exposição um grupo de peças com esta decoração, não marcadas  e atribuídas a Herculaneum, pois existiam  sérias dúvidas sobre a sua origem. Continua, afirmando que até ser encontrado um exemplar  "Greek" marcado, todas as peças devem ser consideradas de origem desconhecida.
Parte de um serviço atribuído a Herculaneum à venda na Christie's

Portanto, resta-me ficar muito contentinha com a minha travessa  sem marca e que há força de tanto olhar para ela, já não acho estranho se tivesse que aqui servir,  em cima deste Baco vitorioso, um rosbife acompanhado de esparregado, que acho que é coisa mais portuguesa.


HYLAND Peter. The Herculaneum Pottery: Liverpool's Forgotten Glory: Liverpool: university press, 2005

SMITH Allen. The Ilustrated Guide to Liverpool Herculaneum Pottery London Barrie & Jenkins 1970

http://spodeceramics.com/pottery/printed-designs/patterns/literature-mythology-arts/greek